Após a polémica e escândalo pela suspensão do jogo da volta da final da Copa Libertadores, é preciso falar sobre o tema da internacionalização dos esportes. Isso porque a Conmebol, além de não demonstrar credibilidade e profissionalismo no processo para resolver a situação, habilmente deslocou esse jogo transcendental para fora da América do Sul (Estádio Santiago Bernabeu em Madri, Espanha, depois de ter considerado opções como Dubai, EUA e Paraguai). Decisão essa que, com certeza, vai trazer mais recursos para as arcas da entidade máxima do futebol sul-americano. A pergunta que fica é: trata-se de uma medida corretiva para solucionar o problema que se apresentou e beneficiar os torcedores, os times, a competição, ou uma oportunidade comercial aproveitada em um momento crítico para gerar mais caixa para a entidade?

Nesse contexto, é interessante analisar alguns detalhes sobre a internacionalização do esporte e algumas das suas modalidades, com casos como os da NFL, NBA e Futebol tanto a nível de ligas nacionais como de seleções.

A NBA é um dos principais exemplos, com jogos disputados fora dos EUA e Canadá tanto em pré-temporada como em temporada regular, nos denominados NBA Global Games. No caso da pré-temporada, começaram esses jogos em 1984 na Itália, passando por mais de 13 países, incluindo Brasil, França, Alemanha e China, entre outros. No caso dos jogos da temporada regular, começaram em novembro de 1990 no Japão, com o último jogo sendo realizado no O2 Arena de Londres, em 11 de janeiro desse ano. Em 2019, a capital inglesa receberá o jogo novamente. Além da Inglaterra e Japão, só México tem sido sede de jogos oficiais da NBA.

Outro exemplo dentro do futebol é a La Liga (da Espanha), querendo conquistar os mercados dos Estados Unidos e do Canadá. Esse ano, a La Liga apresentou um plano ambicioso para realizar jogos da sua competição nesses dois países. Essa tentativa foi barrada temporariamente pelos capitães dos times que não concordavam com o posicionamento de Javier Tebas, máximo dirigente de La Liga, até porque não foi uma decisão devidamente consultada com os times. Os jogadores resistem a serem tratados como mercadoria e entendem que, por trás de tudo isso, há um negócio lucrativo que conta com eles para virar uma realidade. Porém, o negócio está em firme com a Relevent (também organizadora da International Champions Cup – ICC), uma multinacional de mídia, esportes e entretenimento, que promove o futebol nos Estados Unidos e Canadá. Assim que os primeiros jogos serão realizados inicialmente com aqueles times que concordarem, mesmo se não fazem parte dos chamados “grandes” da Espanha.

Também tem a NFL, com seus London Games que começaram em 2007, e até 2015 eram jogados exclusivamente no mítico estádio Wembley. De 2007 até hoje houve 21 jogos, chegando a serem disputados até três jogos por ano. E continuará havendo pelo menos dois jogos por ano até 2020. Além de Wembley, em 2016 e 2017 foram realizados três jogos no Twickenham Stadium, estádio histórico de Rugby, sendo um em 2016 e dois em 2017. No caso do NFL México Game, que reapareceu após ter tido a primeira tentativa em 2005, realizou-se um jogo por ano em 2016 e 2017. Infelizmente, as condições do gramado do estádio Azteca levaram ao cancelamento do jogo de 2018. Nos planos futuros, estão a inclusão de Jogos no estádio do Tottenham Hotspurs de 2019 a 2027 e o provável crescimento em países como Alemanha e Canadá.

Voltando para o Brasil, a Seleção Brasileira, não pode ficar fora da história. Isso porque é reconhecida como a melhor, a de maior quantidade de títulos mundiais, dona de uma imensa base de jogadores talentosos, de uma magia e um sentimento que gera paixões no mundo inteiro. É uma história cheia de detalhes que se traduz resumidamente assim: a CBF decidiu comercializar os direitos para os jogos oficiais da Seleção (aproveitando esse fortíssimo apelo comercial). Começou em 2006 com um contrato assinado pelo Ricardo Teixeira com a empresa ISE (envolvida em um dos grandes casos de corrupção da FIFA), que fazia parte do grupo Dallah Al Baraka, um dos maiores conglomerados do Oriente Médio. Em 2011, foi renovado o contrato com essa empresa por dez anos mais. Porém, pelos diversos problemas da ISE, os direitos foram licenciados entre 2006 e 2012 para a Kentaro. Em 2012, chega mais um capítulo na história com a entrada da Pitch International. E finalmente em setembro de 2017, é aberto um novo processo no qual o Grupo Globo adquire os direitos de transmissão, para plataformas digitais, dos jogos da seleção brasileira pelo período de novembro de 2017 a dezembro de 2022. Porém, pouco se conhece dos outros participantes e atuais detentores dos direitos, mas fica claro com tudo isso, porque cada vez são menos os jogos da Seleção realizados no Brasil

Muitas podem ser as perguntas e afirmações que podem se fazer para entender o porquê dessa tendência. O fato de estarmos em um mundo globalizado leva naturalmente a procurar novos mercados? É o crescimento e desenvolvimento do esporte como indústria que cada vez exige maior presença a nível global? É a voracidade dos dirigentes com interesses próprios que querem lucrar com negócios desse tipo? É uma estratégia de branding e posicionamento para cada vez gerar mais visibilidade e impacto e, consequentemente, maior receita para os times e ligas? Até que ponto isso vai na contramão dos torcedores locais e dos times, gerando consequências para as próprias cidades e países em termos financeiros e econômicos? Como encontrar um ponto de equilíbrio?

Claramente não existe um cenário único, nem uma motivação específica, pois cada caso é diferente e tem objetivos próprios. Porém, a tendência é clara e por enquanto não parece desacelerar, por isso, só resta nos prepararmos para essa nova realidade. Falaremos mais em Copa Libertadores ou Conquistadores nos próximos anos?

Fontes: Wikipedia, Estadão, Globoesporte e Revista Exame.